Apesar de ter a impressão de estar ali há um mês, ainda era dia 05 de janeiro de 2017 quando despertamos para continuar nossa aventura. É formidável e tudo compensa. Você vai deitar morto, entregue e acorda renovado pela perspectiva do que vai encontrar. Ao acessar o estacionamento da pocilga que ficava a três quadras geladas no dia anterior quando guardamos as motos, nos deparamos com uma cadeia de montanhas cobertas pelo gelo. Pronto, aterrissamos em um novo planeta e começa agora uma nova aventura. Estas elevações são integrantes da cadeira de montanhas do vulcão Isluga.

Saímos em busca de combustível e conseguimos comprar com uma senhora muito simpática e tímida. Convidei-a para uma foto e só aceitou depois de bastante conversa e de muitos elogios. Segundo ela, não estava bonita o suficiente para fotografias. Dali partimos em direção a Patacamaya, passando pelo Isluga. Sabíamos que teríamos que adentrar uma vez mais os terrenos inabitados e hostis para retomar nosso roteiro que era na Bolívia e assim fizemos. O tempo limpo, naturalmente e previsivelmente foi se convertendo, o frio aumentava com o avançar da hora, o Sol desaparecendo e a àgua começando a cair. Mais doses de paisagens extasiantes, animais exóticos e endêmicos, lagos de sal, vulcões gigantes cobertos de neve, silêncio e apenas nossas motos caíram, levantamos, quase desistimos, reprogramamos os caminhos, seguimos em frente e já por volta das 18 horas, aproximadamente 10 horas depois que partimos pela manhã, sem almoço novamente e só com água e barrinhas, encontramos um acampamento policial no meio do nada e paramos para pedir orientação.

“Vocês devem se apressar, pois ao anoitecer, em pouco tempo começam as tormentas elétricas na alta montanha”. Os raios e ventos tem uma intensidade que não se pode imaginar e já foram registrados diversos acidentes nesta região. Apertamos o passo do jeito que deu, mas não deu. Encontramos as tão temidas tormentas elétricas. Granizo batendo na viseira, barro, raios, trovões, visibilidade próxima de zero. Quando uma moto se distanciava uns dois ou três metros, já não era possível enxergar nem mesmo a lanterna traseira e sem avisar, enormes poças de lama apareciam à nossa frente. Muito difícil pilotar nestas condições, principalmente porque os pés estavam encharcados e as mãos, praticamente congeladas, apesar das manoplas aquecidas estarem ligadas no máximo. A temperatura já estava abaixo de zero. Não sei se dá pra entender isso, mas estas sensações de dificuldades extremas e desafios, para algumas pessoas nada mais são do que simples momentos que antecedem a superação, e é ai que para aqueles que compreendem isso, o prazer se antecipa. É meio louco. Para um espírito como este, a adversidade é reconhecidamente a antítese inevitável da glória e, portanto, fundamental para quantificá-la.

Funciona mais ou menos assim: se você entende, ok, se não entende, não adianta explicar.

Loucuras a parte, depois de contornar outra montanha, já anoitecendo, avistamos Chungará-Tambo Quemado, uma aduana localizada na rodovia que liga o norto do Chile ao sudoeste da Bolívia. Ali perguntamos: “qual é a cidade mais próxima para nos hospedarmos?” “No lado boliviano, 40 km, no lado chileno, 100”, disse o “meliante”. Resolvemos fazer a maldita travessia para então entrar uma vez mais na Bolívia. Esta aduana é extremamente movimentada e já possui um intenso tráfego de caminhões, já que liga a capital da Bolívia à Arica, a mais setentrional cidade do Chile. Ficamos mais de duas horas rolando em papéis para poder atravessar e não deu outra, “dei baixa” e dormi uma vez mais deitado no confortável banco da moto. Parecia uma suíte no Caesars.